Racionalidade e Talento

Quero começar com uma ideia de que o universo tem uma certa ordem. E que, dentro dessa ordem, cada um de nós tem um lugar. Uma função. Nós chamamos essa função de muitas coisas… vocação, propósito… mas a palavra mais simples é talento.

E não estou falando apenas de saber cantar ou desenhar, não. Talento, aqui, é a sua configuração única. É aquilo que você faz com naturalidade, que te energiza e, que, quando você está fazendo, sente que o tempo voa. É o seu lugar no universo onde você contribui com o seu melhor.

Uma grande questão da nossa vida, então, é: como viver alinhado a esse talento? A resposta, a ferramenta que nos permite fazer isso, também é uma ideia antiga: Temperança.

Temperança é a capacidade de se governar. De fazer escolhas que te alinham com o seu talento, mesmo quando há opções mais fáceis ou mais prazerosas no curto prazo. É a virtude da ordem interna.

Vivemos em um mundo que testa essa Temperança a cada segundo. Gostamos de pensar que somos seres racionais. Que nossas escolhas seguem uma lógica. Por exemplo, a lógica de diminuir a dor e aumentar o prazer.

Pensem num sorvete. A primeira colherada é maravilhosa. A segunda, ótima. A décima… já não tem a mesma graça. A vigésima pode até te fazer passar mal. É uma escolha racional parar quando a satisfação diminui. Nós entendemos isso. Mas essa mesma lógica de ‘otimização racional’ nos prega peças.

Porque, na maioria das nossas decisões importantes, não estamos sendo tão racionais quanto pensamos.

Um exemplo? Não concretizar um bom negócio porque ‘não fomos com a cara desse vendedor’.

Estamos sendo governados por atalhos mentais, por vieses que funcionam com base em um princípio fundamental e perigoso: ‘o que você vê é tudo o que há‘.

Nosso cérebro não trabalha com a realidade inteira. Ele trabalha com a pequena fatia da realidade que está disponível para ele naquele momento. A informação mais recente, a emoção mais forte, a métrica mais óbvia. E ele toma decisões como se essa pequena fatia fosse o mundo todo.

E isso nos leva a um importante viés. O que eu chamo de Paradoxo do Dinheiro.

Funciona assim: uma pessoa está absolutamente focada em ganhar mais dinheiro. Parece a escolha mais racional do mundo. Cada decisão é filtrada por: ‘isso vai me dar um retorno agora?’. Mas aqui está a ironia. Como o cérebro dessa pessoa só está vendo o ganho imediato — porque ‘o que ela vê é tudo o que há’ —, ela sistematicamente rejeita as melhores oportunidades para… ganhar mais dinheiro.

Ela escolhe trabalhar uma hora extra em vez de ler um livro, porque a hora extra tem um valor garantido. O livro, não. Mas ao fazer essa escolha ‘racional’ repetidamente, ela se condena a nunca ter o insight daquele livro. O insight que poderia mudar sua carreira, criar um novo negócio, e gerar um valor exponencialmente maior do que todas aquelas horas extras somadas.

Alguns de vocês podem se perguntar “ele está dizendo para diminuir nossa horas de trabalho?” E a resposta é: não necessariamente.

Quantos de nós passamos um fim de semana inteiro assistindo episódios de uma série que, na segunda-feira, mal lembramos o que aconteceu? O que estou tentando dizer é que ao escolher algo, estamos negando outras possibilidades.

A questão nunca foi ‘trabalhar menos’. A questão é a alocação de recursos.

O foco enviesado no ganho imediato nos torna cegos para as verdadeiras fontes de riqueza. E isso nos traz de volta ao começo.

Ao Universo Ordenado, ao seu Talento e à Temperança.

A escolha de ler o livro em vez de trabalhar uma hora extra não é uma escolha ‘irracional’. É uma escolha governada por uma lógica superior.

A lógica da Temperança.

É a decisão consciente de dizer ‘não’ a um ganho pequeno e certo, em nome de um bem muito maior, porém incerto: o alinhamento com o seu talento.

Utilizando a capacidade de se governar para investir na sua configuração única, para encontrar o seu lugar no universo.

A verdadeira racionalidade, portanto, não é apenas maximizar a satisfação imediata. É ter a sabedoria e a temperança para construir, dia após dia, uma vida que floresça seu talento.

Saberia dizer qual seu principal talento?

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